sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

UM HOMEM ILUSTRE DE MOLEDO DA PENAJOIA



UM HOMEM ILUSTRE DE MOLEDO DA PENAJÓIA
Fernando Correia Dias bem cedo deixou a casa dos pais, em Moledo da Penajóia e foi estudar para Coimbra artes gráficas, pintura e desenho.
Nasceu numa casa reconhecida na região como Palácio da Boa Esperança, ali, mesmo à beira do rio Douro. Dela se pode avistar através das suas muitas janelas uma paisagem deslumbrante de vinhedos em socalcos pelas montanhas acima. No portal da casa brasonada com armas de pedra com insígnias: “Valor, Lealdade, Mérito” rodeado de glicínias. Um casarão à beira do rio entre serras e vinhedos que no Outono ficam salpicados de cores douradas e vermelhos e despidas de cachos de uvas.
Serviu esta casa numa das suas salas para Escola do Ensino Primário às crianças desta povoação, onde também eu fui aluno e hoje está votada a ruína.
Fernando Correia Dias um jovem dos mais equilibrados e inteligente artista (palavras de Virgílio Correia). Pertence ao grupo de Coimbra e foi, com Crhistiano Cruz e Luís Philipe, um dos introdutores de uma nova visão estética, que veio a desenvolver-se no Modernismo.
Nasceu em Moledo da Penajóia em 10 de Novembro de 1892 e aos 21 anos foi para o Brasil. No Rio de Janeiro, onde desembarcou em Abril de 1914, era esperado no cais por um grupo de escritores e artistas, entre os quais o poente e ensaísta carioca Ronald de Carvalho. A sua noção intelectual e distinta é o reconhecimento do seu esforço em compreender a vida Cultural Brasileira onde fez muitas outras amizades. Foi um “ renovador das artes gráficas “ no Brasil.
Provavelmente, foi na redacção da Revista da Semana onde o artista português conheceu, no final de 1919 ou início de 1920, a jovem escritora e professora do ensino fundamental, ela que ali fora levar uma colaboração aos editores do periódico -o Conto “Si sustenido”, que seria publicado na edição de Janeiro de 1920. Assinava Cecília Meireles. As qualidades do artista devem ter chamado a atenção de Cecília e certamente lhe despertou a identificação de afinidades electiva. Conheceram-se em 24 de Outubro de 1922, ela com vinte anos, ele com 29. Casaram-se na Matriz de São João Batista, bairro carioca de Botafogo. Deste casamento nasceram três filhas: Maria Elvira Meireles Dias, Maria Matilde Meireles Dias e Maria Fernanda Meireles Correia Dias.
Foi para os trabalhos de Cecília que o Fernando Correia Dias desenhava algumas das suas melhores ilustrações.
Cecília Meireles, também ela descendente de pais portugueses, foi cultivando o entusiasmo de vir a Portugal e conhecer a terra do marido. Quando chegaram a Lisboa foram recebidos por amigos com quem mantinham correspondência. Também personagens do meio da cultura.
Fernando e Cecília, decidiram que deviam passar duas semanas junto da família no casarão do Moledo da Penajóia. De Lisboa com destino ao Porto e do Porto para Régua, onde chegaram já ao fim do dia, ao escurecer, esperavam-nos amigos e familiares para o resto de percurso que teve de ser feito por barco a remos, onde Cecília e marido se tiveram de acomodar no rabelo, reservado para eles, onde o barqueiro era maneta, para fazer a travessia., onde os esperavam os sogros Correias Dias Araújo ao chegarem ao casarão .
A hospitalidade da família foi deslumbrante, cada refeição um ritual de confraternização e as iguarias da terra não faltaram. (no dizer de Cecília Meireles).
Ali escreveu poemas e recolheu quadras do cancioneiro local. Colecção a que daria o título de “Cancioneirinho de Moledo da Penajóia”, que se encontra hoje na Biblioteca Nacional e único exemplar

Moledo da Penajóia,
no fundo da freguesia:
à beira do rio é noite,
por cima da terra é dia
”.

Transcrito por João Alves das Neves, in o Estado de S.Paulo, 8 Abril de 1989 .
Dizia Cecília “Gostaria de tornar a morar naquele casarão de paredes enormes, com uma cozinha quase medieval, com glicínias escorrendo pelos caramanchões, tudo entre vinhedos, casebres, escadas de pedra onde as avós catavam piolhos aos netos e uma velhinhas seculares trazem de manhãzinha peixinhos do rio, tão transparentes como a própria água , queijinhos moles e jarros de leite”. Escrevia muitos anos depois daquela estada, ao poeta açoriano Armando Cortes – Rodrigues em 29 de Novembro de 1946.
Cecília e Fernando Correia Dias, deixam o Moledo a 10 de Novembro em direcção a Lamego onde foram conhecer a família da irmã dele.
Fernando Correia Dias nas três semanas que passou por Lisboa, depois de tão prolongada ausência de seu país natal desencontra-se de vários amigos da década de 10 que deve tê-lo entristecido. “ Tão bom e tão artista”, como costumava dizer Cecília, o marido sofria de crises de depressão, a que o Fernando sempre recusou qualquer tratamento e acabou por suicidar-se no regresso ao Brasil. Foi um génio, especialmente
Especialmente na passagem do Saudosismo para o Modernismo. Mas foi no Brasil que Fernando Correia Dias teve o êxito que cá não tinha.



Fr. José Jesus Cardoso

5 comentários:

Armando Ribeiro disse...

Foi pena que o Cancioneirinho não tivesse vindo para a Penajóia; seria uma riqueza cultural no espólio não sei de quem, mas gostava que isso tivesse acontecido. Do mal o menos; foi para a Biblioteca Nacional, fugindo à voraz ambição de um aventureiro qualquer. Um abraço de agradecimento a Frei Cardoso pela sua informação.

ieei disse...

À bem pouco tempo e por causa do meu apelido " Dias ", recebi um e-mail, do Brasil, de alguem que dizia ser neto de Fernando Correia Dias e de Cecília Meireles.
Fui de propósito um dia, tirar fotografias da casa do Moledo, como ele lhe chamou e enviei várias para o Brasil, mostrando desta feita, uma casa em ruinas.
Ele proprio tambem me contou sobre o cancioneiro do Moledo, que sua avó Cecilia, escreveu ali, durante a sua curta passagem.

Alexandre C. Teixeira disse...

Prezado Frei Cardoso,

A partir de um link que me foi enviado por meu amigo transatlântico "ieei", tomei, com muito gosto, conhecimento de seu interessante texto sobre meu avô, Fernando Correia Dias. Porém, em benefício dos leitores, gostaria de fazer alguns reparos ao mesmo, como seguem: Meu avô não nasceu no Palácio da Boa Esperança, mas em Valclaro, só se mudando para lá quando meu bisavô retornou, em definitivo, da África. Outro ponto, em geral desconhecido é o local de seu casamento com minha avó, que ocorreu em sua própria casa, na Rua da Matriz, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro. Muita gente, por vagamento ler ou ouvir referências a "Matriz", acredita que ele haja se casado na Igreja da Matriz (que fica em frente à Rua da Matriz. Este é um dado que não consta da biografia de minha avó e nós mesmos só deslindamos esse mistério ao conseguirmos obter, recentemente, uma certidão de casamento de minha avó. O nome de minha mãe, grafa-se com "th" - Mathilde - como o de minha bisavó, Mathilde Benevides Meirelles (filha de açorianos e mãe de Cecília). Quanto ao Cancioneirinho de Penajoia, informo-lhe que localizamos uma cópia do mesmo nos arquivos de minha avó e que pretendemos, oportunamente, publicá-lo. Neste ponto devo esclarecer que minha avó viajou para Portugal a convite oficial do governo português, através de António Ferro, ao qual entregou, em sua partida de regresso para o Brasil, a cópia do Cancioneirinho de Penajoia que hoje encontra-se na Biblioteca Nacional e que também julgávamos, com muito pesar ser a única (aliás, a bem da verdade sequer sabíamos da sua exata localização). Embora pretenda escrever-lhe diretamente, gostaria de agradecer, aqui, ao meu amigo “ieei" pela gentileza da lembrança de me encaminhar o link de seu blog. Atenciosamente, Alexandre C. Teixeira (solombra@solombra.org)

humorgrafe disse...

Esta foto não é de Fernando Correia Dias natural de Lamego e artista de renome, mas de um fernando Correia Dias sociologo em Minas

humorgrafe disse...

Esta foto não é do artista Fernando Correia Dias, mas do sociologo Fernando Correia Dias, brasileiro natural de Minas

 
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